Ebulição

Aquilo era felicidade. Aquela cidade sudorenta, aqueles dias cinzas, meus óculos cor de sonho. Eu querendo me arrastar pelas ruas e me esfregar no chão, para que impregnasse em mim também um pouco dela, da cidade, porque ela já continha algo de você e eu não. Eu nunca retive nada além do perfume.
Naquelas horas avulsas de soluço e convulsão me tornei imprópria, louca, perdida e DESESPERADA. Sim, eu sei, você viu nos meus olhos, nas minhas pupilas dilatadas, a cor do desespero. Uma mulher nunca deve se mostrar desesperada.
Mas meu corpo pulsava e eu ouvia o som dos bandolins e era como se não houvesse vida antes dali, daqueles dias cinzentos e atormentados, onde eu te amei mais do que ninguém. Onde me debulhei em lágrimas prevendo o fim de tudo, onde fiz coisas que não devia, talvez porque quisesse expulsar aquele amor que me nutria ao mesmo tempo que se alimentava da minha carne. Era o medo, meu bem, o pavor de que a noite acabasse e você me deixasse ali sozinha, ardendo na fogueira do meu desejo, presa no cárcere do teu cheiro, devorada pelo abismo do teu olhar. Aquilo era a tal felicidade.
Eu querendo qualquer coisa que fosse tua, te perseguindo pelas ruas sujas daquela cidade baixo-ventre. Te esperando entre portas, escorrendo paixão entre as pernas, derretendo nas paredes entre nós. E naquela noite coloquei meu vestido rodado, meu sapato dourado e fui ao teu encontro confessar meu amor pueril. O que senti no caminho, no táxi, vendo as luzes daquela cidade de maravilhas tenebrosas, esperando que todos os sinais esverdeassem para que assim encolhesse o espaço entre nós, sem dúvida, era felicidade.
Mas você não estava em casa.
E a felicidade tem o frescor de uma chuva de verão. Vem sem aviso, encharca o tempo e vai embora, deixando apenas um cheiro, a lembrança de que um dia passou por ali e ali não ficou.

Ebulição – Tainá Muller